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Quinta-feira, Maio 26, 2005:::
fazendo lição pra dona elenice (ê quinta feira viu)
apareceu:

Jenna Franklin é inglesa e terá seus 16 anos no dia 23 de agosto deste ano. Para seu aniversário, os pais lhe oferecerão implantes de silicone nos seios. A praxe é esperar até mais tarde (depois dos 20 anos) para que a intervenção modifique um corpo que já tenha parado de crescer. [...] Essa noticia fez recentemente a primeira página dos tablóides ingleses. Prevaleceram as expressões indignadas contra nosso mundo que cultua as aparências: aonde iremos parar se os pais autorizam ou, pior, transmitem diretamente o dever de agradar aos outros? Que desastre moral se prepara? [...]
Jenna disse que desejava seios maiores desde os 12 anos e, questionada por que, acrescentou: "Precisa ter seios para ser bem-sucedida". E ainda: "Uma pessoa em cada duas na televisão teve implantes. Se eu quiser ser bem-sucedida, devo tê-los também e eu quero ser bem-sucedida, embora no momento ainda não saiba no quê". E enfim: "Só quero ser feliz com o meu corpo". Kay, a mãe, declarou: "Há tantas jovens que se deprimem ou se atrapalham por causa de sua aparência. Então, se der para fazer algo para evitar isso, ótimo". [...] Antes de jogar uma pedra, pense um pouco: será que o presente da mãe de Jenna é essencialmente diferente do gesto de numerosas mães que oferecem academias, spas e regimes a suas filhas? Ou mesmo que lhes impõe aparelhos ortodônticos que parecem cabrestos? Na verdade, a mãe de Jenna não é diferente de nós. Ela é a banalidade da maneira moderna de amar os rebentos: queremos que eles seduzam bem além do que nós conseguimos. Não imaginamos uma forma de felicidade, uma gestão do prazer ou uma forma de sucesso que não passem pela conquista da aprovação dos outros. E como não querer a felicidade de filhos e filhas? Quanto a Jenna, sua fala vale um livro ou dois sobre o tema do narcisismo. Ela nos explica que a relação com nós mesmos, nossa maneira de julgar a imagem que aparece no espelho passa sempre pelo olhar dos outros. Jenna quer ser feliz com seu corpo. E acha que isso acontecerá quando ela fizer parte do grupo de implantadas que povoam a tela da televisão.

Contardo Calligaris. Folha de S. Paulo





!| 12:41 AM |Comentários:



Sábado, Maio 14, 2005:::
três.
o limite. que ele sabia que tinha que ultrapassar

dois.
o presente. aquele que parecia sustentável (se ele não fosse o "sujeito")

um.
contagem regressiva. pra recomeçar outra vez a contagem

a única certeza é que ele não entende nada.

E daí? Quanto mais se compreende mais se quer compreender pois o tudo
parece ser o ideal.. o ideal não lhe parece viável
Então continuemos com nossa doce ignorância.. eu, ele

-Eu sou a parte racional. Aquela parte. A mais estúpida
que se esforça em entender e aprender pra saber que não vai entender.

-Ele aquela parte que a gente não entende. Exatamente por que ele não entende
por que ele se define por suas ações. Ele é o que faz e nada mais.

-Eu sou o que tento ser e tento aprender pra tentar fazer.
Acabo no final no meio e no começo não sendo.
Eu sou o que tento ser.
Vivo tentando.
Tento.
não sou.

Voltando a contagem.
três. dois. um.

-pronto. pode sair

-posso?

-pode.

num fluxo incontrolável e indefinido ele se vai
alcançando e afetando o que se pode ver por perto
mas ele quer mais
17 anos guardado a sete chaves não lhe permitiram experimentar.
So lhe permitiram saber que existe. Não pode. Mas existe.

Ele queria sentir a dança do vento.
Queria ver o céu chorar. Queria chorar junto.
Queria um beijo. Só um. Dois. Três. Pronto.

Um. Ele brinca com nosso sentimento

Dois. Uma revolução de cheiro/cor/textura/tudo

Três. O fim.

Eu tentei convencê-lo a voltar. Tive que fazê-lo chorar.
Tive que o machucar. Tive que o reprimir. Não hesitei. De novo.
Três decepções ou mais. Dois motivos pra me fazer parar. Um sorriso
que nos ensine a sonhar.

Um. O machuquei, o fiz chorar.

Dois. Não hesitei, o prendi de novo.

Três. Junto com ele tudo que aprendi ser bom.

.........

palavras de: Adriano
e-mail: drianofrota@hotmail.com.br
www: /afx_adriano

.!


!| 11:35 PM |Comentários:



Segunda-feira, Maio 02, 2005:::

SIM, SOMOS ACOMODADOS
(em resposta às afirmações do Presidente, feitas em 25/04/2005, de que somos um povo acomodado)
(por Alessandro Eloy Braga, Professor de Literatura e Escritor de Brasília-DF / alessandrobragabr@gmail.com)

Sim, Excelentíssimo Senhor Presidente da República, somos acomodados. Somos acomodados porque aceitamos receber um salário mínimo de R$ 300,00 reais, enquanto os franceses recebem um de R$ 4.000,00. Somos acomodados porque aceitamos pagar juros e encargos contratuais a cartões de crédito e bancos que ultrapassam os 12% ao mês e porque aceitamos que a Caderneta de Poupança renda apenas 0,5%.

Somos acomodados porque aceitamos que o Governo passe a cobrar novamente contribuição social dos aposentados. Somos acomodados porque permitimos que nossos idosos passem mais de 10 horas em uma fila para receber ou dar entrada em sua aposentadoria. Somos acomodados porque aceitamos que o Comitê de Política Monetária do Banco Central aumente todos os meses a taxa básica de juros e que isso provoque um efeito cascata na economia que nos faz pagar os juros mais altos do mundo em todos os setores do mercado.

Somos acomodados porque aceitamos pagar mais de 40% do valor de tudo o que compramos em impostos e impostos e impostos.... Somos acomodados porque aceitamos pagar em impostos retidos na fonte o que chega a equivaler a três meses de trabalho. Somos acomodados porque aceitamos transitar em rodovias e avenidas deterioradas e que danificam nossos carros e que provocam tantos acidentes e que matam tantas pessoas, enquanto não sabemos exatamente para onde vão as verbas arrecadas com a enorme quantia que pagamos em impostos como o IPVA, o CPMF e aqueles cobrados sobre o preço dos combustíveis.

Somos acomodados porque aceitamos colocar nossos filhos em escolas públicas sucateadas, sem segurança, com profissionais desanimados e insatisfeitos, com professores que são vistos como os profissionais mais desclassificados da sociedade e que ganham salários que não são suficientes nem para preencher o vazio da barriga, quem diria se alimentar de cultura. Ou como disse o outro Presidente que o antecedeu: que os professores são apenas pessoas que não conseguiram ser outra coisa melhor na vida, são derrotados.

Somos acomodados porque permitimos tantas diferenças sociais e que tantos passem fome e vivam abaixo da linha da miséria, porque é evidente que somos nós que fazemos essa distribuição desigual da renda. Somos acomodados porque, certamente, somos nós que permitimos que os madeireiros destruam a selva amazônica e que os norte-americanos e europeus e japoneses roubem nossa biodiversidade e depois a vendam a nós por preços altíssimos.

Somos acomodados porque ainda comparecemos às urnas de dois em dois anos para escolhermos pessoas que não representam o povo, mas que representam apenas seus próprios interesses. Somos acomodados porque ainda não resolvemos, todos nós eleitores, anular nossos votos e mostrar nossa descrença em governos como este que aí está. Somos acomodados porque aceitamos que estes "representantes do povo" façam leis que não beneficiam em nada ou muito pouco o povo ou que aumentem, quando bem entendem, os seus próprios salários, que já passam de R$ 50.000,00, somadas todas as regalias parlamentares.

Somos acomodados porque permitimos as altas taxas de desemprego. Somos acomodados por vivemos em um país em que, para se comprar uma simples geladeira, é preciso dividir seu preço em 24 vezes, com juros falsos de 1% ao mês, quando deveríamos ser capazes de comprá-la à vista. Somos acomodados porque permitimos o aumento das tarifas básicas de água, luz e telefone e dos combustíveis, valores que representam as maiores contribuições para o aumento da inflação e que são, em sua maioria, autorizados por esse mesmo Governo que chama seu povo de acomodado.

Sim, somos acomodados porque permitimos que nossa segurança pública seja tão precária. Somos acomodados porque permitimos que os bandidos (traficantes, ladrões, assassinos, seqüestradores, parlamentares, prefeitos, governadores, ministros e presidentes, entre outros) tomem conta de nossa sociedade e façam desse povo uma simples massa de manobra.

Sim, somos acomodados porque acreditamos que um operário, um homem saído do sofrimento mais rude da seca, um sindicalista, um ex-comunista, um nacionalista fosse fazer algo de significativo pelo país, provocar mudanças profundas nas estruturas políticas, econômicas e sociais e por isso fomos acomodados e votamos em Vossa Excelência e acreditamos em Vossa Excelência.

Sim, Senhor Presidente, somos acomodados porque, certamente, somos nós que não oferecemos uma educação de qualidade, capaz de formar cidadãos críticos, lutadores e não acomodados. Sim, Senhor Presidente, somos acomodados porque aceitamos que o Senhor vá à televisão e diga palavras tão vis e hipócritas a esse povo tão acomodado por não acreditar mais que seja possível mudar algo nesse país de pouquíssimos escolhidos e de muitos apartados.

Somos acomodados porque ainda conseguimos sobreviver nesse Brasil que nem é o nosso.

!| 4:50 PM |Comentários: